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Nutrição Clínica

Dieta Neutropénica: Entre a prática clínica e a evidência científica

A dieta de baixo teor microbiano tem sido amplamente utilizada em doentes neutropénicos, mas a evidência científica atual questiona a sua eficácia e destaca os potenciais impactos negativos na microbiota intestinal e na qualidade de vida destas pessoas. Tendo por base a análise de um artigo científico atual, será a segurança alimentar uma alternativa mais eficaz à restrição alimentar implícita nesta dieta?

Dieta Neutropénica (ou de baixo teor microbiano): definição e indicações clínicas

Como protocolo de minimização da incidência de infeções, mais de 80% dos centros de transplante de medula óssea preconizam, durante o período de neutropenia, a prescrição de uma dieta de baixo teor microbiano, também designada por dieta neutropénica (1).

A dieta de baixo teor microbiano caracteriza-se pelo consumo de alimentos confecionados e pela restrição de alimentos em cru, como as frutas frescas e os produtos hortícolas. O pressuposto assente na adoção desta dieta reside em evitar, através da via oral, a introdução de microrganismos patogénicos num trato gastrointestinal danificado pela quimioterapia, limitando a translocação destes para a corrente sanguínea (1). 

O Manual de Dietas Hospitalares, desenvolvido pela Direção-Geral de Saúde em 2021, faz menção à dieta de baixo teor microbiano, definindo-a como:

Dieta com restrição de alimentos de elevado risco microbiano, com o objetivo de reduzir o risco de infeção” (2). 

Este tipo de dieta permite satisfazer as necessidades nutricionais médias de um individuo adulto, porém é deficitária em micronutrientes, sobretudo em ácido ascórbico, dada a restrição de frutas e de produtos hortícolas em cru (2).

A sua indicação recai sobretudo em (2):

  • doentes imunodeprimidos com contagem total de neutrófilos <1000 mm3;
  • doentes sob terapia medicamentosa imunossupressora;
  • doentes sob alto risco infecioso

No que toca ao plano alimentar, é desaconselhada a ingestão de alimentos provenientes do domicílio, o consumo de fruta restringe-se a frutas de casca rija (banana, laranja, melão, melancia ou meloa), cozida, assada ou em calda e, ainda, é recomendada a ingestão de água engarrafada. Nos alimentos não permitidos incluem-se as bebidas estimulantes (chá, café) e alcoólicas, produtos de charcutaria, alimentos mal cozinhados, fruta não descascável ou de casca fina, produtos hortícolas crus, frutos oleaginosos, queijos frescos e alimentos não pasteurizados (2). 

O que nos diz a evidência científica sobre a Dieta Neutropénica

Segundo as orientações para a prática clínica da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN), não existem dados clínicos consistentes e suficientes para recomendar uma dieta de baixo teor microbiano por mais de 30 dias após transplante alogénico, ou em doentes neutropénicos com doença oncológica (3,4,5). 

Um estudo prospetivo e aleatorizado, desenvolvido em Itália entre 2016 e 2022, objetivou avaliar o impacto da dieta na incidência de infeções e no outcome, em doentes adultos hospitalizados submetidos a TAPH ou transplante alogénico, e doentes adultos hospitalizados com período de neutropenia previsto superior a 7 dias (1).

  • Com um total de 222 doentes elegíveis (111 doentes com dieta de baixo teor microbiano e 111 com dieta não restritiva), os autores não encontraram diferenças significativas entre grupos:
    • na incidência de infeções e ocorrência de óbitos 30 dias após o TPH, na variação de parâmetros nutricionais (peso corporal e albumina sérica), na duração do internamento e na incidência da Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (este último em doentes sob transplante alogénico).
  • Em acréscimo, constataram uma tendência crescente na incidência de infeções gastrointestinais nos doentes com dieta de baixo teor microbiano, sugerindo um efeito prejudicial desta na modulação e preservação de uma microbiota intestinal funcional, a qual é preventiva à translocação de microrganismos patogénicos.
  • Ainda, foi verificado uma maior satisfação com a alimentação nos doentes com dieta não restritiva. Por este motivo, os autores afirmam que a prescrição de uma dieta de baixo teor microbiano é vista como uma perturbação desnecessária à qualidade de vida dos doentes

Apesar do estudo não evidenciar efeitos adversos na prescrição de uma dieta não restritiva em doentes submetidos a quimioterapia de alta dose e/ou a TPH, as conclusões não são suficientes para alterar protocolos enraizados na prática clinica hospitalar corrente.

Considerações finais

À luz da evidência atual, a estratégia mais promissora para reduzir o risco de infeções transmitidas pela alimentação em doentes neutropénicos passa por assegurar uma rigorosa adesão às normas de higienização e segurança alimentar, nomeadamente, nas instalações e utensílios, da receção de matérias-primas, no manuseamento, armazenamento, preparação e confeção dos alimentos (1,3,4).

Bibliografia

  1. Stella F, Marasco V, Virginia Levati G, Guidetti A, De Filippo A, Pennisi M, et al. Nonrestrictive diet does not increase infections during post-HSCT neutropenia: data from a multicenter randomized trial. Blood Adv. 10 de Outubro de 2023;7(19):5996–6004.
  2. Gregório MJ, Graça P, Santos L, Mourato A, Albuquerque MD, Pratas J, et al. Manual de Dietas Hospitalares. Direção-Geral da Saúde, editor. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Lisboa; 2021.
  3. Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, Bozzetti F, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition. 2017;36(1):11–48.
  4. Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition. 1 de Maio de 2021;40(5):2898–913.
  5. Thibault R, Abbasoglu O, Ioannou E, Meija L, Ottens-Oussoren K, Pichard C, et al. ESPEN guideline on hospital nutrition. Clinical Nutrition. 1 de Dezembro de 2021;40(12):5684–709
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