Nutrição Clínica
Considerações Nutricionais na Doença Oncológica
A desnutrição, a sarcopenia e a caquexia são complicações frequentes que comprometem a eficácia dos tratamentos e a qualidade de vida da pessoa com doença oncológica. Este artigo reflete sobre o impacto das alterações metabólicas e dos efeitos adversos das terapias antineoplásicas no estado nutricional, reforçando a importância de uma intervenção precoce e multidisciplinar como parte integrante do tratamento da doença oncológica.
Abordagem multidisciplinar no tratamento da doença oncológica
O tratamento da doença oncológica representa um processo contínuo de cuidados, desde o momento do diagnóstico até ao tratamento e follow-up. As necessidades do doente, consoante o estadio da doença, devem ser o foco de todas as intervenções, cuja otimização e individualização carecem de uma atuação multidisciplinar (1).
Doentes oncológicos recém diagnosticados encontram-se frequentemente em risco nutricional, devido às particularidades que a doença e as terapias antineoplásicas acarretam no estado nutricional (2).
Alterações metabólicas e risco nutricional
Alterações metabólicas subjacentes à doença, como o aumento da taxa metabólica de repouso, a resistência à insulina, a lipólise e a proteólise induzidas pela inflamação sistémica e fatores catabólicos, a par de uma ingestão alimentar inadequada, contribuem para o aparecimento de um balanço energético negativo e para a perda de massa muscular. Clinicamente, considera-se que existe uma ingestão alimentar inadequada quando o doente não se alimenta por mais de uma semana ou quando a ingestão energética é inferior a 60% das suas necessidades, num período superior a uma ou duas semanas (3).
Estas alterações favorecem o desenvolvimento de quadros de desnutrição, sarcopenia e caquexia oncológica, com repercussões na recuperação e sobrevivência do doente oncológico (4).
Desnutrição em Oncologia
A desnutrição, causada por um estado inflamatório promotor de anorexia e perda ponderal involuntária, influência a resposta aos tratamentos antineoplásicos, retarda o processo de cicatrização, agrava a função muscular e o risco de complicações pós-operatórias, com consequente aumento do período de internamento e redução da sobrevivência (4).
Estima-se que 15% a 40% dos doentes estejam desnutridos no momento do diagnóstico, incrementando para 40% a 80% no decurso da doença (4).
Sarcopenia e Obesidade Sarcopénica
A sarcopenia, caracterizada pela perda de massa muscular esquelética, com redução da força e da capacidade física, impacta negativamente a qualidade de vida do doente oncológico. Recentemente, foram definidos os termos “sarcopenia primária” associada ao processo de envelhecimento, e “sarcopenia secundária” quando a perda de massa muscular e de força surgem como efeito da doença subjacente (1).
Nos doentes com obesidade, a perda ponderal deve-se principalmente à redução da massa muscular esquelética, a qual remete para um quadro de obesidade sarcopénica. Estas alterações aumentam o risco metabólico e constituem um indicador de complicações associadas aos tratamentos antineoplásicos (4).
Caquexia Oncológica
Por outro lado, a caquexia oncológica resulta da combinação das alterações metabólicas, inflamação sistémica e diminuição do apetite, sendo definida por uma perda de peso involuntária e por um comprometimento da massa muscular esquelética, com ou sem perda de massa gorda (4,5).
A caquexia oncológica é irreversível sob suporte nutricional convencional, exigindo intervenções que incluam uma ingestão energética e proteica adequadas, e o recurso a agentes anti-inflamatórios (5).
Sintomas gastrointestinais decorrentes das terapias antineoplásicas
Relativamente ao impacto das terapias antineoplásicas no estado nutricional, durante a quimioterapia e radioterapia, mais de 50% dos doentes reportam disgeusia, náuseas, vómitos e mucosite (4).
Outros efeitos secundários incluem úlceras orais, xerostomia, obstipação, mal absorção, diarreia, redução da motilidade e dor não controlada (3).
Objetivos da intervenção nutricional na doença oncológica
Como descrito no artigo de revisão da Prof. Doutora Paula Ravasco, a intervenção nutricional no doente oncológico tem como objetivos principais (4):
- Identificar, prevenir e tratar a desnutrição por meio do aconselhamento nutricional, suplementação nutricional oral (SNO) e, quando necessário, por nutrição artificial entérica ou parentérica.
- Avaliar as alterações metabólicas e nutricionais que influenciam a recuperação e a sobrevivência do doente.
Assim, a intervenção nutricional visa, em última instância, influenciar favoravelmente a composição corporal, com o potencial de melhorar os resultados da terapia antineoplásica, a morbilidade e, em última instância, o prognóstico da doença oncológica. Ressalva-se que a mesma deve ser adjuvante ao tratamento antineoplásico, implementada de forma precoce, regular e planeada em equipa multidisciplinar, garantindo uma abordagem integrada e personalizada à pessoa com doença oncológica (4).
Bibliografia
- Muscaritoli M, Arends J, Aapro M. From guidelines to clinical practice: a roadmap for oncologists for nutrition therapy for cancer patients. Vol. 11, Therapeutic Advances in Medical Oncology. SAGE Publications Inc.; 2019.
- Ford KL, Orsso CE, Kiss N, Johnson SB, Purcell SA, Gagnon A, et al. Dietary choices after a cancer diagnosis: A narrative review. Vols. 103–104, Nutrition. Elsevier Inc.; 2022.
- Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, Bozzetti F, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition. 2017;36(1):11–48.
- Ravasco P. Nutrition in cancer patients. Vol. 8, Journal of Clinical Medicine. MDPI; 2019.
- Dias M, Irving S, Alves P, Correia M. What is new in cancer cachexia comprehension and treatment? Acta Portuguesa de Nutrição [Internet]. 31 de Março de 2023 [citado 21 de Novembro de 2024];32:76–80. Disponível em: https://dx.doi.org/10.21011/apn.2023.3212