Skip to main navigation Skip to main content Skip to page footer

Nutrição Clínica

Anorexia Nervosa: Uma perturbação para além do peso

Criado por Catarina Sequeira | | Nutrição Clínica | Doenças do Comportamento Alimentar Anorexia Nervosa

A Anorexia Nervosa consiste numa perturbação do comportamento alimentar complexa, caracterizada por uma restrição alimentar severa, distorção da imagem corporal e consequências sérias ao nível da saúde física e psicológica. Mais do que o aumento da massa corporal, o tratamento desta patologia exige uma intervenção clínica especializada e multidisciplinar, aliando a dietoterapia à psicoterapia.

Doenças do Comportamento Alimentar (DCA)

As doenças do comportamento alimentar (DCA), também designadas por perturbações do comportamento alimentar, agrupam um conjunto de doenças do foro psiquiátrico, caracterizadas por perturbações persistentes no comportamento alimentar e por um comprometimento do funcionamento psicológico (1). 

Exemplos de manifestações destas perturbações incluem:

  • Ausência aparente de interesse pela alimentação;
  • Recusa alimentar baseada nas características organoléticas dos alimentos;
  • Preocupação excessiva pela alimentação. 

Estas condições refletem-se, frequentemente, pela incapacidade persistente de satisfazer as necessidades nutricionais e/ou energéticas do indivíduo, podendo desencadear perda de peso acentuada ou dificuldade no ganho ponderal, défices nutricionais, dependência de suporte nutricional artificial e perturbações psicossociais significativas (2).

Importa distinguir as DCA de transtornos alimentares, dado que ambos dizem respeito a padrões alimentares problemáticos, mas com diferenças significativas entre si. Os transtornos alimentares são caracterizados por uma perturbação persistente no comportamento relacionado com a alimentação, resultando em alterações no consumo alimentar, que comprometem a saúde física e o funcionamento psicossocial (2). 

Neste sentido, comparativamente aos transtornos alimentares, as DCA cumprem critérios de diagnóstico definidos no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5 TR), a par da adoção de regimes alimentares restritivos, distorções na imagem corporal, comportamentos compensatórios, complicações clínicas, problemas profissionais e relacionais, bem como episódios de depressão e/ou ansiedade (1).

O DSM-5 TR define critérios de diagnóstico específicos para cada uma das principais DCA (2), nomeadamente:

  • Anorexia Nervosa (AN);
  • Bulimia Nervosa (BN);
  • Perturbação da Compulsão Alimentar (PCA);
  • Perturbação da Ingestão Alimentar Restritiva e Evitativa (PIARE);
  • Perturbações Específicas da Alimentação e do Comportamento Alimentar (PEACA).

Anorexia Nervosa (AN)

A AN é uma condição psiquiátrica caracterizada pela restrição da ingestão energética, em relação às necessidades basais do indivíduo, resultando numa perda de peso significativa face à idade, sexo, estado de desenvolvimento e condições de saúde (2). Indivíduos com diagnóstico de AN apresentam também perturbações da imagem corporal, medo intenso de ganhar peso, falta de reconhecimento da gravidade da doença e comportamentos persistentes que interferem com o aumento ponderal (4).

A AN pode ser categorizada em dois subtipos clínicos (5): 

  1. Restritivo (ANTR) - caracterizado pela imposição de restrições severas na quantidade e no tipo de alimentos consumidos, sem a ocorrência sistemática de episódios de compulsão alimentar ou uso de laxantes, diuréticos e enemas;
  2. Compulsivo/purgativo (ANTC/P) - para além da restrição alimentar, são verificados comportamentos purgativos, de compulsão alimentar e o uso de laxantes, diuréticos e/ou enemas. 

Tipicamente, os padrões alimentares adotados por indivíduos com AN são hipocalóricos, de baixa variabilidade e marcados pela exclusão ou receio do consumo de alimentos ricos em gordura, açúcar e/ou hidratos de carbono. Numa fase inicial da doença, podem não se manifestar indicadores evidentes de desnutrição, uma vez que o organismo, pela capacidade homeostática, consegue assegurar as funções vitais. Com a progressão da doença, a sensação extrema de fome e a restrição alimentar severa desencadeiam um conjunto de complicações graves, como um balanço energético negativo crónico, perda ponderal significativa, défices nutricionais severos, falência múltipla de órgãos e, em casos de extrema gravidade, morte (4).

Nos casos em que a AN se manifesta durante os períodos da infância e adolescência, é comum verificar-se um abrandamento das taxas de crescimento e desenvolvimento. Com a progressão da AN, os sinais e sintomas de inanição tornam-se mais evidentes e, em alguns casos, irreversíveis, mesmo sob terapêutica nutricional adequada (4).

Critérios de diagnóstico

De acordo com o DSM-5 TR, o diagnóstico da AN é definido com base nos seguintes critérios (2):

  1. Restrição persistente da ingestão calórica em relação às necessidades individuais, desencadeando um peso corporal significativamente baixo face à idade, género, desenvolvimento e saúde física. Um peso corporal significativamente baixo é definido como um peso inferior ao peso mínimo normal ou, em idade pediátrica, um peso menor do que o valor mínimo esperado. Este parâmetro é avaliado através do Índice de Massa Corporal (IMC) e das curvas de crescimento, estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) (6).
  2. Medo intenso de ganhar peso ou de aumentar a gordura corporal, ou a presença de comportamentos persistentes que interferem no ganho ponderal, mesmo quando o peso corporal se encontra significativamente baixo.
  3. Perturbação na perceção do próprio peso, forma ou imagem corporal, influência indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação, ou ausência persistente do reconhecimento da gravidade do estado de baixo peso.

Em acrescento aos critérios supracitados, o diagnóstico da ANTR estabelece que, nos últimos três meses, o indivíduo não apresenta episódios recorrentes de compulsão alimentar ou comportamentos purgativos, como vómitos autoinduzidos, ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas. Neste caso, a perda de peso característica é alcançada através de uma alimentação severamente restritiva, períodos prolongados de jejum e/ou exercício físico excessivo (2).

Prevalência

De acordo com a literatura encontrada, na Europa Ocidental, as taxas de incidência de AN têm se mantido relativamente estáveis desde a década de 1970. A maioria das DCA apresentam uma prevalência mais elevada no sexo feminino, em comparação com o sexo masculino, com uma média de idades de 19 a 20 anos para a AN. Comparativamente à população em geral, os indivíduos com DCA apresentam taxas de mortalidade e suicídio elevadas. Segundo alguns estudos, a AN é a doença psiquiátrica com maior taxa de mortalidade, com uma probabilidade 18,1 vezes superior de morte por suicídio (7).

O estudo de Cruz et al. teve como objetivo analisar os internamentos por DCA em hospitais portugueses do setor público durante um período de 15 anos (de 2000 a 2014). Os autores registaram um total de 4485 internamentos, correspondentes a 3237 doentes ao longo do período de estudo. O diagnóstico de AN revelou-se o mais prevalente, com 1750 casos (54,1%), sendo também responsável pelo maior número de internamentos (n=2806). Ainda, a AN evidenciou uma mortalidade de 0.9%, o que corresponde a 25 óbitos no período de estudo considerado. A idade média global dos doentes com DCA foi de 25,7 anos, com uma predominância marcada no sexo feminino (86,5%) (7).

Manifestações clínicas

A AN está associada a um conjunto amplo de complicações graves, com destaque para as alterações na densidade mineral óssea (DMO), com uma redução significativa em cerca de 40% dos doentes com AN. Esta redução favorece a ocorrência de fraturas ósseas. Outro fenótipo associado à AN consiste no aumento do número e tamanho dos adipócitos na medula óssea, apesar da coexistência de um quadro de lipodistrofia. Clinicamente, existe uma correlação negativa entre a DMO e o tecido adiposo da medula óssea (8).

A privação energética característica da AN leva à supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG), devido à diminuição da secreção da hormona libertadora de gonadotropina (GnRH), um mecanismo semelhante ao que é observado na amenorreia hipotalâmica funcional (FHA). A associação entre a AN e a FHA, a par da evidência de que a restrição alimentar é fator de risco ao desenvolvido da FHA, sugere que variantes genéticas envolvidas na regulação da saciedade, do apetite e do peso possam influenciar fatores físicos e/ou psicológicos, bem como a resposta ao stress psicológico e a consequente supressão do eixo HPG. A literatura também descreve que a AN está associada a perturbações da ansiedade e depressão (8).

Em adição, a AN está associada a diversas alterações sistémicas. Em termos hematológicos, é frequente a ocorrência de leucopenia, anemia e trombocitopenia. A desidratação pode manifestar-se através de níveis séricos elevados de ureia, sendo igualmente comum a presença de hipercolesterolemia. Ocasionalmente, são observadas alterações eletrolíticas, como hipomagnesemia, hipozincemia, hipofosfatemia e hiperamilasemia, que podem culminar em encefalopatia metabólica difusa (2).

Em relação ao estado físico, doentes com AN apresentam um quadro clínico de emaciação marcada, a par de hipotensão, hipotermia e bradicardia. Outras manifestações incluem obstipação, dor abdominal e letargia. Pode também surgir laguno, isto é, desenvolvimento de pelo fino ao longo do corpo, e edema periférico, especialmente durante a recuperação do peso ou após a suspensão da toma de laxantes e diuréticos (2).

Considerações finais

O papel do nutricionista no tratamento das DCA, em particular na AN, consiste em identificar e avaliar a gravidade da desnutrição, as perturbações alimentares e a ausência de competências que impedem a obtenção e manutenção de um estado nutricional adequado. Na prática clínica, são elaborados planos alimentares adaptados e individualizados com o objetivo de corrigir défices nutricionais, melhorar o estado nutricional e promover educação alimentar, ajudando a desconstruir crenças pejorativas associadas aos alimentos (9).

Em suma, o tratamento destas patologias exige uma abordagem multidisciplinar e individualizada, que integre a saúde física e mental, e reconheça a nutrição como uma componente terapêutica imprescindível.

Bibliografia

  1. Amy Dennis. National Eating Disorders Association. [citado 17 de Dezembro de 2024]. What is the Difference Between Disordered Eating and Eating Disorders? Disponível em: https://www.nationaleatingdisorders.org/what-is-the-difference-between-disordered-eating-and-eating-disorders/
  2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders DSM-5 TM. Fifth Edition. 2013.
  3. Barakat S, McLean SA, Bryant E, Le A, Marks P, Aouad P, et al. Risk factors for eating disorders: findings from a rapid review. Vol. 11, Journal of Eating Disorders. BioMed Central Ltd; 2023.
  4. Lampert J, Waterhous T, Graves L, Cassidy J, Herrin M. Guidebook for Nutrition Treatment of Eating Disorders. 2020.
  5. Iliadis C, Frantazana A, Ouzounakis P, Kourkouta L. Anorexia nervosa: A literature review. Program Health Science. 2020;10(2).
  6. World Health Organization [Internet]. 1995 [citado 17 de Dezembro de 2024]. Malnutrition in women. Disponível em: https://www.who.int/data/nutrition/nlis/info/malnutrition-in-women
  7. Cruz AM, Gonçalves-Pinho M, Santos JV, Coutinho F, Brandão I, Freitas A. Eating disorders—Related hospitalizations in Portugal: A nationwide study from 2000 to 2014. International Journal of Eating Disorders. 1 de Outubro de 2018;51(10):1201–6.
  8. Feng B, Harms J, Chen E, Gao P, Xu P, He Y. Current Discoveries and Future Implications of Eating Disorders. Vol. 20, International Journal of Environmental Research and Public Health. Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI); 2023.
  9. McMaster CM, Wade T, Franklin J, Hart S. A review of treatment manuals for adults with an eating disorder: nutrition content and consistency with current dietetic evidence. Vol. 26, Eating and Weight Disorders. Springer Science and Business Media Deutschland GmbH; 2021. p. 47–60.
Voltar