Nutrição Comunitária e Saúde Pública
Dieta Mediterrânica e Saúde Mental: O que nos diz a ciência?
A Dieta Mediterrânica (DM) é reconhecida como um dos padrões alimentares mais saudáveis a nível mundial. Mas será que também pode ter um impacto positivo no nosso bem-estar psicológico? O estudo “Mediterranean Diet Adherence and Subjective Well-Being in a Sample of Portuguese Adults" procurou perceber a existência de uma relação entre a adesão à DM e a saúde mental.
Introdução
O estudo “Mediterranean Diet Adherence and Subjective Well-Being in a Sample of Portuguese Adults” avaliou a associação entre a adesão à DM e bem estar subjetivo (SWB) em 490 adultos portugueses residentes em Lisboa e Alentejo.
A introdução do artigo encontra-se organizada, bem fundamentada e apresenta:
- O conceito Dieta Mediterrânica: os autores afirmam que esta denota a partilha hereditária da individualidade cultural e alimentar dos países que rodeiam a Bacia do Mar Mediterrâneo. Referem o Estudo dos 7 Países, listam os principais alimentos constituintes, enaltecem o reconhecimento desta dieta como património cultural e imaterial da humanidade pela UNESCO e fazem menção à pirâmide da DM.
- A definição de Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o que considero pertinente para a definição de Bem-estar. Este, por seu turno, integra fatores sociais e ambientais, além de considerar a avaliação subjetiva do indivíduo sobre o seu bem-estar (SWB). Os autores referem que o SWB é uma construção do foro psicológico que remete para um estado mental positivo associado à experiência de vida do indivíduo. Ainda, esclarecem ao leitor que a avaliação do SWB é feita mediante fatores psicológicos de dimensão hedónica (satisfação geral da vida e componente afetiva) e de dimensão eudemónica (propósito e sentido atribuído à vida).
- A existência de uma relação entre a adesão à DM e o SWB: Referem um estudo nacional que verifica que o consumo predominante de carne está associado a uma maior frequência de sintomas depressivos, quando comparado com padrões alimentares onde predominam frutas e vegetais
- Objetivo do estudo: avaliar a adesão à DM através do índice MEDAS e averiguar a existência de uma relação entre a DM e o SWB na amostra em estudo.
Materiais e Métodos
Os autores dividiram a secção em 3 tópicos: o Desenho Experimental e Ética, Recolha de Dados e Análise de Dados.
No Desenho Experimental, descrevem a metodologia adotada, aprovada pelo comité de ética da Unidade de Investigação do Instituto de Santarém. O estudo foi concebido para avaliar a adesão à DM, utilizando o índice MEDAS, em articulação com fatores do estilo de vida e o SWB. Para a recolha de dados, foi elaborado um questionário no Google Forms, divulgado através de plataformas online entre maio e dezembro de 2019.
Um ponto essencial em qualquer investigação científica é a caracterização da amostra. Neste caso, os participantes eram adultos portugueses residentes em Portugal, maioritariamente provenientes das regiões de Lisboa e Alentejo. Dos 505 participantes, apenas 490 foram incluídos, após aplicação dos critérios de elegibilidade. No entanto, a amostra levanta questões de representatividade, dado que não incluiu indivíduos do norte e sul do país. Além disso, o número de participantes parece reduzido face à população portuguesa adulta (cerca de 10,3 milhões de habitantes, dos quais 87% de idade superior a 15 anos, segundo dados da Pordata de 2021(4)). Assim, considero que a amostra é limitada, tanto em dimensão como em diversidade geográfica.
Relativamente à Recolha de Dados, o questionário, desenvolvido no âmbito de um projeto internacional, incluía 57 questões sobre dados sociodemográficos, perceção de bem-estar, estado de saúde, estilo de vida e hábitos alimentares.
Por fim, saliento que os autores não identificaram explicitamente o tipo de estudo realizado, embora se trate de um estudo observacional transversal.
Resultados
Os autores organizaram os resultados em quatro tópicos: características sociodemográficas dos participantes, adesão à DM e estilo de vida, bem-estar subjetivo (SWB) e variáveis associadas à adesão à DM e à relação entre DM e SWB.
Na análise da adesão à DM e estilo de vida, a Tabela 2 apresenta uma média de 7,4 pontos no índice MEDAS (mediana = 7). Verificaram-se diferenças significativas entre géneros, sendo a adesão superior nas mulheres. Segundo os critérios do estudo PREDIMED (5), cerca de 17% dos participantes apresentaram elevada adesão, 63% adesão moderada e 20% baixa adesão.
Quanto ao SWB, os participantes foram distribuídos em três perfis:
Perfil 1: índice médio de 8,1 (bem-estar mais elevado);
Perfil 2: índice médio de 6,2;
Perfil 3: índice médio de 3,9 (bem-estar mais baixo).
Mais de metade dos indivíduos foi incluída no perfil 2, correspondente a níveis intermédios de bem-estar subjetivo.
Na análise das variáveis que influenciam a adesão à DM e a sua relação com o SWB, os autores observaram que o perfil 3 (SWB mais baixo) apresentou também a pontuação mais baixa de adesão à DM, enquanto o perfil 1 (SWB mais elevado) obteve as pontuações mais altas no índice MEDAS.
Discussão e Conclusão
A discussão inicia-se pela relevância do estudo, tanto para a comunidade científica como para a sociedade. Os autores destacam a escassez de dados de adesão à DM na população portuguesa adulta, bem como a falta de avaliação concreta do SWB, reforçando assim o contributo deste trabalho para estas áreas.
Na comparação dos resultados com estudos nacionais, a média obtida no índice MEDAS (n = 490, média = 7,4) foi inferior à registada em estudos com amostras maiores e semelhante à de estudos com amostras mais reduzidas. Tal facto, a meu ver, decorre principalmente da dimensão limitada da amostra, sendo plausível que uma amostra mais ampla pudesse apresentar valores distintos. Ao comparar com estudos internacionais (Espanha, Grécia, Reino Unido e Coreia do Sul), os autores identificam diferenças atribuídas sobretudo a variações nos padrões culturais e alimentares.
No que respeita à associação entre a adesão à DM e fatores sociodemográficos, socioeconómicos e de estilo de vida, a análise é sustentada por literatura científica. Destaco como resultado positivo a observação de que uma maior frequência de contacto com a natureza pode estar relacionada a uma maior adesão à DM. Os autores defendem, e concordo, que futuros estudos deverão explorar esta associação em amostras maiores e abrangentes, incluindo participantes em áreas urbanas e rurais.
Relativamente à relação entre a adesão à DM e o SWB, os resultados são comparados com dados do Centro de Estatística da União Europeia (EUROSTAT) (6), fonte considerada fidedigna e atualizada.
Quanto às limitações do estudo, os autores referem:
- dimensão e abrangência geográfica reduzida da amostra;
- autopreenchimento do questionário, que pode induzir sobrevalorização dos hábitos alimentares;
- natureza observacional do estudo, que permite apenas descrever associações,
Nas potencialidades, os autores referem que o preenchimento do questionário num ambiente calmo e seguro, previne a distorção dos resultados sobre o SWB. Contudo, considero discutível esta afirmação, dado que fatores como a vergonha, esquecimento ou desejo de resposta socialmente aceite podem ter influenciado as respostas. Já no que se refere à seleção dos participantes, reconheço que os critérios aplicados são uma mais valia na prevenção de vieses relacionados com as diferenças entre países, embora a representatividade nacional seja limitada.
A conclusão dá resposta ao objetivo definido e enaltece a importância da DM como um padrão alimentar associado ao bem-estar psicológico:
“General health and mental wellness are intimately linked to healthy behaviours, with Mediterranean Diet playing a central role as a multicomponent concept including healthy, sustainable food habits, and other lifestyle and social factors that impact on health and society”.
Bibliografia
- Andrade V, Quarta S, Tagarro M, Miloseva L, Massaro M, Chervenkov M, et al. Exploring Hedonic and Eudemonic Items of Well-Being in Mediterranean and Non-Mediterranean Countries: Influence of Sociodemographic and Lifestyle Factors. Int J Environ Res Public Health. 2022 Feb 1;19(3).
- Moreno-Agostino D, Caballero FF, Martín-María N, Tyrovolas S, López-García P, Rodríguez-Artalejo F, et al. Mediterranean diet and wellbeing: evidence from a nationwide survey. Psychol Health. 2019 Mar 4;34(3):321–35.
- López-Olivares M, Mohatar-Barba M, Fernández-Gómez E, Enrique-Mirón C. Mediterranean diet and the emotional well-being of students of the campus of melilla (University of granada). Nutrients. 2020 Jun 1;12(6):1–12.
- Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pordata – Estatisticas de Portugal e Europa [Internet]. [cited 2022 Dec 3]. Available from: https://www.pordata.pt/portugal/populacao+residente+segundo+os+censos+total+e+por+grandes+grupos+etarios-512
- Martínez-González M, García-Arellano A, Toledo E, Salas-Salvadó J, Buil-Cosiales P, et al. A 14-Item Mediterranean Diet Assessment Tool and Obesity Indexes among High-Risk Subjects: The PREDIMED Trial. PLOS ONE. 2012;7(8).
- Eurostat. Subjective Well-Being—Statistics [Internet]. [cited 2022 Dec 5]. Available from: https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Subjective_well-being_-_statistics