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Nutrição Comunitária e Saúde Pública

Dieta Mediterrânica e Saúde Mental: O que nos diz a ciência?

Criado por Catarina Sequeira | | Saúde Pública | Alimentação Nutrição Saúde Mental

A Dieta Mediterrânica (DM) é reconhecida como um dos padrões alimentares mais saudáveis a nível mundial. Mas será que também pode ter um impacto positivo no nosso bem-estar psicológico? O estudo “Mediterranean Diet Adherence and Subjective Well-Being in a Sample of Portuguese Adults" procurou perceber a existência de uma relação entre a adesão à DM e a saúde mental.

Introdução

O estudo  “Mediterranean Diet Adherence and Subjective Well-Being in a Sample of Portuguese Adults” avaliou a associação entre a adesão à DM e bem estar subjetivo (SWB) em 490 adultos portugueses residentes em Lisboa e Alentejo.

A introdução do artigo encontra-se organizada, bem fundamentada e apresenta:

  • O conceito Dieta Mediterrânica: os autores afirmam que esta denota a partilha hereditária da individualidade cultural e alimentar dos países que rodeiam a Bacia do Mar Mediterrâneo. Referem o Estudo dos 7 Países, listam os principais alimentos constituintes, enaltecem o reconhecimento desta dieta como património cultural e imaterial da humanidade pela UNESCO e fazem menção à pirâmide da DM.
  • A definição de Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o que considero pertinente para a definição de Bem-estar. Este, por seu turno, integra fatores sociais e ambientais, além de considerar a avaliação subjetiva do indivíduo sobre o seu bem-estar (SWB).  Os autores referem que o SWB é uma construção do foro psicológico que remete para um estado mental positivo associado à experiência de vida do indivíduo. Ainda, esclarecem ao leitor que a avaliação do SWB é feita mediante fatores psicológicos de dimensão hedónica (satisfação geral da vida e componente afetiva) e de dimensão eudemónica (propósito e sentido atribuído à vida).
  • A existência de uma relação entre a adesão à DM e o SWB: Referem um estudo nacional que verifica que o consumo predominante de carne está associado a uma maior frequência de sintomas depressivos, quando comparado com padrões alimentares onde predominam frutas e vegetais
  • Objetivo do estudo: avaliar a adesão à DM através do índice MEDAS e averiguar a existência de uma relação entre a DM e o SWB na amostra em estudo.

Materiais e Métodos

Os autores dividiram a secção em 3 tópicos: o Desenho Experimental e Ética, Recolha de Dados e Análise de Dados.

No Desenho Experimental, descrevem a metodologia adotada, aprovada pelo comité de ética da Unidade de Investigação do Instituto de Santarém. O estudo foi concebido para avaliar a adesão à DM, utilizando o índice MEDAS, em articulação com fatores do estilo de vida e o SWB. Para a recolha de dados, foi elaborado um questionário no Google Forms, divulgado através de plataformas online entre maio e dezembro de 2019.

Um ponto essencial em qualquer investigação científica é a caracterização da amostra. Neste caso, os participantes eram adultos portugueses residentes em Portugal, maioritariamente provenientes das regiões de Lisboa e Alentejo. Dos 505 participantes, apenas 490 foram incluídos, após aplicação dos critérios de elegibilidade. No entanto, a amostra levanta questões de representatividade, dado que não incluiu indivíduos do norte e sul do país. Além disso, o número de participantes parece reduzido face à população portuguesa adulta (cerca de 10,3 milhões de habitantes, dos quais 87% de idade superior a 15 anos, segundo dados da Pordata de 2021(4)). Assim, considero que a amostra é limitada, tanto em dimensão como em diversidade geográfica.

Relativamente à Recolha de Dados, o questionário, desenvolvido no âmbito de um projeto internacional, incluía 57 questões sobre dados sociodemográficos, perceção de bem-estar, estado de saúde, estilo de vida e hábitos alimentares.

Por fim, saliento que os autores não identificaram explicitamente o tipo de estudo realizado, embora se trate de um estudo observacional transversal.

Resultados

Os autores organizaram os resultados em quatro tópicos: características sociodemográficas dos participantes, adesão à DM e estilo de vida, bem-estar subjetivo (SWB) e variáveis associadas à adesão à DM e à relação entre DM e SWB.

Na análise da adesão à DM e estilo de vida, a Tabela 2 apresenta uma média de 7,4 pontos no índice MEDAS (mediana = 7). Verificaram-se diferenças significativas entre géneros, sendo a adesão superior nas mulheres. Segundo os critérios do estudo PREDIMED (5), cerca de 17% dos participantes apresentaram elevada adesão, 63% adesão moderada e 20% baixa adesão.

Quanto ao SWB, os participantes foram distribuídos em três perfis:

  • Perfil 1: índice médio de 8,1 (bem-estar mais elevado);

  • Perfil 2: índice médio de 6,2;

  • Perfil 3: índice médio de 3,9 (bem-estar mais baixo).

Mais de metade dos indivíduos foi incluída no perfil 2, correspondente a níveis intermédios de bem-estar subjetivo.

Na análise das variáveis que influenciam a adesão à DM e a sua relação com o SWB, os autores observaram que o perfil 3 (SWB mais baixo) apresentou também a pontuação mais baixa de adesão à DM, enquanto o perfil 1 (SWB mais elevado) obteve as pontuações mais altas no índice MEDAS.

Discussão e Conclusão

A discussão inicia-se pela relevância do estudo, tanto para a comunidade científica como para a sociedade. Os autores destacam a escassez de dados de adesão à DM na população portuguesa adulta, bem como a falta de avaliação concreta do SWB, reforçando assim o contributo deste trabalho para estas áreas.

Na comparação dos resultados com estudos nacionais, a média obtida no índice MEDAS (n = 490, média = 7,4) foi inferior à registada em estudos com amostras maiores e semelhante à de estudos com amostras mais reduzidas. Tal facto, a meu ver, decorre principalmente da dimensão limitada da amostra, sendo plausível que uma amostra mais ampla pudesse apresentar valores distintos. Ao comparar com estudos internacionais (Espanha, Grécia, Reino Unido e Coreia do Sul), os autores identificam diferenças atribuídas sobretudo a variações nos padrões culturais e alimentares.

No que respeita à associação entre a adesão à DM e fatores sociodemográficos, socioeconómicos e de estilo de vida, a análise é sustentada por literatura científica. Destaco como resultado positivo a observação de que uma maior frequência de contacto com a natureza pode estar relacionada a uma maior adesão à DM. Os autores defendem, e concordo, que futuros estudos deverão explorar esta associação em amostras maiores e abrangentes, incluindo participantes em áreas urbanas e rurais.

Relativamente à relação entre a adesão à DM e o SWB, os resultados são comparados com dados do Centro de Estatística da União Europeia (EUROSTAT) (6), fonte considerada fidedigna e atualizada.

Quanto às limitações do estudo, os autores referem:

  • dimensão e abrangência geográfica reduzida da amostra;
  • autopreenchimento do questionário, que pode induzir sobrevalorização dos hábitos alimentares;
  • natureza observacional do estudo, que permite apenas descrever associações,

Nas potencialidades, os autores referem que o preenchimento do questionário num ambiente calmo e seguro, previne a distorção dos resultados sobre o SWB. Contudo, considero discutível esta afirmação, dado que fatores como a vergonha, esquecimento ou desejo de resposta socialmente aceite podem ter influenciado as respostas. Já no que se refere à seleção dos participantes, reconheço que os critérios aplicados são uma mais valia na prevenção de vieses relacionados com as diferenças entre países, embora a representatividade nacional seja limitada.

A conclusão dá resposta ao objetivo definido e enaltece a importância da DM como um padrão alimentar associado ao bem-estar psicológico:

“General health and mental wellness are intimately linked to healthy behaviours, with Mediterranean Diet playing a central role as a multicomponent concept including healthy, sustainable food habits, and other lifestyle and social factors that impact on health and society”.

Bibliografia

  1. Andrade V, Quarta S, Tagarro M, Miloseva L, Massaro M, Chervenkov M, et al. Exploring Hedonic and Eudemonic Items of Well-Being in Mediterranean and Non-Mediterranean Countries: Influence of Sociodemographic and Lifestyle Factors. Int J Environ Res Public Health. 2022 Feb 1;19(3).
  2. Moreno-Agostino D, Caballero FF, Martín-María N, Tyrovolas S, López-García P, Rodríguez-Artalejo F, et al. Mediterranean diet and wellbeing: evidence from a nationwide survey. Psychol Health. 2019 Mar 4;34(3):321–35.
  3. López-Olivares M, Mohatar-Barba M, Fernández-Gómez E, Enrique-Mirón C. Mediterranean diet and the emotional well-being of students of the campus of melilla (University of granada). Nutrients. 2020 Jun 1;12(6):1–12.
  4. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pordata – Estatisticas de Portugal e Europa [Internet]. [cited 2022 Dec 3]. Available from: https://www.pordata.pt/portugal/populacao+residente+segundo+os+censos+total+e+por+grandes+grupos+etarios-512
  5. Martínez-González M, García-Arellano A, Toledo E, Salas-Salvadó J, Buil-Cosiales P, et al. A 14-Item Mediterranean Diet Assessment Tool and Obesity Indexes among High-Risk Subjects: The PREDIMED Trial. PLOS ONE. 2012;7(8).
  6. Eurostat. Subjective Well-Being—Statistics [Internet]. [cited 2022 Dec 5]. Available from: https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Subjective_well-being_-_statistics